Pensei, mas não disse.

Dia desses estava on line lendo mais uma besteira dita pelo nosso presidente quando surge uma janela do MSN. Era uma amiga querendo conversar. “Oi”, “tudo bem”, “como vai” e mais algumas outras burocracias iniciam a conversa eletrônica. Passado algum tempo minha amiga diz que está tendo problemas com o namorado. Fico na minha, afinal os problemas são com o namorado dela e não comigo. Mas ela ignora meu silêncio e continua. Diz que está chateada porque ele aceitou R$ 10 que ela oferecera para que ele ficasse na loja enquanto ela se ausentasse. “Ora, mas você não ofereceu? Qual o problema dele aceitar!”, pensei ao ler seus escritos. Mas não respondi. Ao contrário, disse que não havia entendido o que ela escrevera - frases de internet realmente são difíceis de serem entendidas.

Uma vez mais ela ignorou minha deixa. Seguiu contando o quão chateada ficara. “Tudo bem! Vou dar a opinião masculina de que ela precisa”, pensei após várias “tremidas” na janelinha do MSN. Perguntei se ela estava querendo testá-lo ao oferecer o dinheiro - afinal, era o único motivo que a deixaria chateada por ele ter aceitado. Ela respondeu que não. Disse que estava tentando persuadi-lo a ficar na loja e não esperava que ele aceitasse o dinheiro. “No capitalismo o dinheiro é um ótimo meio de persuadir alguém. As pessoas até trabalham em troca de dinheiro!”, pensei, cá com meus botões.

Mas vá lá. Mesmo que minha amiga não estivesse premeditada a testá-lo, seu inconsciente estava. Oferecer dinheiro a ele era uma forma de saber algo. “Será que ele está comigo por dinheiro?”, já deveria ter pensado algumas vezes. Seu íntimo não descansara. Aquela dúvida permanecia dentro dela e a consumia rotineiramente. A insegurança era uma “amiga” que a visitava continuamente. Com tudo aquilo em seu inconsciente, de uma hora para outra, ela oferece dinheiro ao namorado para que ele fique em sua loja. Sua esperança é que ele recuse. Fique apenas porque a ama. Mas isso não acontece e ela se frusta…

Pensei tudo isso enquanto a janelinha do MSN tremia. Minha amiga ansiava por respostas. Queria a opinião de outro homem sobre o assunto. Uma opinião que poderia ser dolorosa, mas frequentemente é precisa. Se tivesse acesso a minha mente teria tido um diagnótisco completo. Mas através de meus escritos pouco obteve.

Passado algum tempo e depois dela desistir de fazer tremer a janelinha, voltei a ler seus dizeres. Após relutar dizendo que não, que seu objetivo não era testá-lo, ela revela algo que confirmaria meus pensamentos. Minha amiga conta que já encheu o tanque da moto do rapaz algumas vezes. Seu pai já emprestou dinheiro a ele em outra ocasião. Diante dessas constatações já não havia mais dúvidas. Minha tese havia se confirmado: seu inconsciente queria respostas ao oferecer dinheiro ao namorado. “As leituras de Freud servem para alguma coisa”, pensei.

É justamente nossas ações não intencionais que revelam nossas verdadeiras e mais sinceras intenções. Minha amiga, de fato, não tinha a intenção de testar seu namorado. Mas o seu inconsciente sim. Sua atitude não intencional de oferecer dinheiro a ele era uma forma de saber se o seu relacionamento estava baseado em algo além do amor. “Ele está atrás do meu dinheiro?”, pensara seu íntimo.

Tudo que relatei eu pensei ao longo daquela conversa eletrônica. Mas não disse nada a minha amiga. “Por que?”, perguntarão as mulheres - os homens, provavelmente, já sabem as respostas. Não disse por dois motivos: 1) Existe um código de ética entre os homens (apesar de alguns não respeitarem); 2) A amizade entre homens e mulheres possui limites e o maior deles é não conversar sobre os problemas de relacionamento delas. Uma exceção importante: problemas referentes a sexo. A gente gosta de saber como anda a concorrência.

Diante dessas restrições morais apenas recomendei que ela conversasse seriamente com seu namorado. Encarasse a questão de frente e resolvesse sua aflição. Além disso, disse para que nunca mais ela me procurasse para aquele tipo de conversa. Ela aceitou e se despediu. Fechei o MSN e voltei a ler as bobagens que o nosso presidente anda dizendo… :)

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1 Comentário »

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  1. sensacional!
    e elas não aprendem né ?

    Comment por felipesantiago — setembro 20, 2008 #

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